O que já foi feito

Projeto em S. João da Pesqueira

Promotor: Pesqueiramiga

O estudo de caso realizado em São João da Pesqueira revelou um sucesso além das expectativas na produção de um longa metragem desta natureza. Tanto o resultado final como o impacto na comunidade foram surpreendentes, o que justifica uma análise aprofundada. A primeira fase do projeto foi surpreendente desde o início. Em colaboração com a Pesqueiramiga - entidade promotora - foi possível estabelecer uma relação fundamental com a comunidade. Desde a divulgação da intenção do projeto até a formação de grupos de trabalho, envolveu-se a comunidade de forma natural e espontânea.

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No caso específico de São João da Pesqueira, o tema da violência doméstica estava definido desde o início. A região enfrentava uma grave situação que exigia uma ação urgente. No entanto, foi somente durante a fase de desenvolvimento dos grupos de trabalho que a verdadeira dimensão desse flagelo na localidade ficou clara. Foi uma surpresa constatar o nível de violência e a generalização deste fenomeno, um diagnóstico que só foi possível graças à criação desses grupos de reflexão. Por meio dos diversos testemunhos recolhidos, foram reveladas histórias e detalhes únicos, o que permitiu transformar um tema amplo em um assunto específico e exclusivo da localidade.

Depois dos testemunhos recolhidos em diferentes faixas etárias e em diferentes níveis socioculturais seguiu-se a escrita dos guiões, única fase de todo o projeto elaborada por um elemento externo à comunidade. Não obstante, todos os guiões passaram pelo crivo dos protagonistas das histórias reais.

Outro aspeto que tornou todo o processo único foi o facto de os elementos responsáveis pelas filmagens serem pessoas conhecidas na freguesia. Até então produtores de casamentos e batizados, viram-se agora como realizadores de cinema e isso exigiu inúmeras horas de reuniões e planificação para que no dia das gravações tudo estivesse tecnicamente preparado.

Para o casting, a entidade parceira foi também imprescindível. Todos os atores foram selecionados e convidados por quem os conhecia e isso concedeu uma informalidade que viabilizou com rapidez a definição dos papéis. O enfermeiro, a assistente operacional, o produtor de vinho, a empregada de limpeza, pessoas sem qualquer experiência foram convidadas para se tornarem atores de cinema por uma causa que todos conheciam. Foi também surpreendente o entusiasmo com que todos aceitaram o convite, sem reservas, nem sequer timidez, a causa parecia maior do que todos os seus medos.

Mas foi no início das gravações que se começou a perceber o verdadeiro impacto deste misterioso filme produzido na terra, com as pessoas que todos conheciam.

Durante três semanas, nos cafés, nas escolas, no trabalho, em todas as esquinas, não se falava de outra coisa. Todos queriam saber que filme era aquele, em que televisão iria passar, porque é que os seus vizinhos eram agora estrelas de cinema.

O desempenho destes atores improvisados foi também único, fazendo adivinhar que o que estava a ser feito era na verdade um documento de valor cultural e social sem precedentes. Apesar do guião estar escrito, as personagens adaptavam cada palavra às palavras da terra. A ideia estava lá, no diálogo escrito, mas a forma de o dizer foi meticulosamente alterada por quem a dizia.

Nem sempre o texto estava sabido, as mesmas cenas foram por diversas vezes gravadas, mas em nenhum momento os atores esmoreceram. Havia nervos, vontade de fazer melhor, mas nunca houve sinais de desistência. E contra o que seria de esperar a planificação cumpriu-se e no dia calendarizado terminaram as gravações.

Seguiu-se a fase de edição. Foi talvez a fase mais complicada do processo. As cenas tinham sido gravadas, mas ninguém sabia muito bem a qualidade do material. Os atores não eram profissionais, a equipa de filmagens também não, havia muita montagem para fazer. Horas de erros e cortes para rever até que o resultado final fosse o mais perfeito possível. Às vezes parecia que não ia resultar, mas até aqui a comunidade foi imprescidível. Músicos, artísticas, a banda filarmónica da terra, todos se juntaram para ajudar a transformar todas as imperfeições em beleza.

E contra tudo o que aquele amadorismo faria supor, o dia da estreia cai como uma bomba na terra. Todos queriam ver aquele filme que, no fundo, era de todos.

No dia 15 de junho de 2023 o cineteatro de São João da Pesqueira veste-se de gala para a antestreia mais inusitada e bonita que a terra viu. O filme de todos, feito para todos.

E durante três dias o cinema esgotou e durante os meses que se seguiram o tema não saiu da grande mesa redonda de uma localidade. Este será o valor real de uma intervenção que saiu dos limites da ciência e intrometeu-se no quotidiano, criando reflexões alicerçadas nas emoções e não na razão. Durante meses o assunto da violência domésticas irrompeu nas conversas de café de uma localidade inteira que se uniu para combater um problema de todos. Pedir um autógrafo a um vizinho será porventura um símbolo de um novo paradigma baseado na extraordinária ideia de sermos todos importantes e autores da nossa vida.